Em uma conversa, em casa, surgiu uma séria questão teórico-conceitual sobre a moda brasileira que foi publicada pelo, já conhecido de vocês, Marcus Cardoso no Blog do Editor e republicado aqui na nossa Casa. Reflitam!
A moda nacional ainda desnuda sua crítica e perde em evolução e profissionalização?

Marcus Cardoso
Época de semanas de moda, e namorando uma consultora, não se fala em outra coisa. Calado, ouvindo de todos os lados, acabo concluindo algumas coisas. E é hora de colocar isso no papel.
O Brasil não tem crítica de moda, apesar de acreditar de “salto junto” que possui. Tem um clubinho de amigos que, mesmo com a profissionalização e o crescimento do clube, funciona basicamente assim: no clubinho, há aqueles que produzem, os que fazem acontecer, os que comentam e divulgam e os que vendem e promovem. Todo mundo se ajudando. Não é lindo? É, mas em que se difere de uma cooperativa de táxi? Vende-se um glamour, um nicho de mercado que, muitas vezes, não desce da casa da árvore fashion.
Ousaria dizer que o cinema nacional só começou a colocar bons filmes nas nossas salas, nessa fase conhecida como pós-Cidade de Deus, porque a tchurminha da crítica independia da tchurminha da produção cinematográfica. E isso é saudável. É por haver uma séria critica de Cinema, de Música, de Arte, de… que esses meios evoluem, crescem, aprendem e mandam ver em seus produtos.
Mas e na moda nacional? É que se você falar mal, não vai ser convidado pra próxima festinha exclusiva, não vai ganhar mais a famigerada “fila ‘A’”, não vai ser presenteado de surpresa, não vai mais ser chamado para novos trabalhos… complicado, né?
Daí, vem o Pense Moda – em outubro de 2009 – e diz o óbvio. Mas como diz de fora, enfim os ‘de dentro’ pareceram acordar quanto à real e profissional critica. Afinal, fora consumidores e entusiastas [audiência fácil], quem ainda aguenta blogs e twitters que gostam e “adoram” tudo, que “todo mundo” é seu novo “melhor amigo”, que acham tudo “incrível”? É fácil ‘chegar lá’ quando se conquista – de forma ética e genuína ou não – a simpatia de todos os ingênuos da paróquia passarélica, né?
Quando um suspiro de seriedade parece dar esperança, vem a auto-censura e acaba com tudo. Na edição Inverno 2010 do Fashion Rio, o Portal FFW criticou pesada e embasadamente o que a grife carioca Espaço Fashion apresentou em seu desfile. Em questão de horas, o texto desapareceu do site e seus leitores deram falta do sumiço. Agora, o texto voltou ao portal, mas todo comedido e editado.
[Aqui, vale um um parêntese. Apesar disso, com sua cobertura da edição de inverno do Fashion Rio 2010, o Portal FFW foi o primeiro a despertar da letargia da 'lambeção' e do alisar de cabeças que crítica nacional promove(ia). E nisso há muito mérito!]
Voltando… há sim quem faça crítica, mas criticar vai além de dizer que tal coisa é cópia de outra; que tal coleção nacional estava a cara da coleção X italiana.
Vale lembrar que a gente vive em um mundo onde tudo já foi dito, escrito, feito, desenhado, pensado, musicado, composto. É hora de ser inventivo nas referências e interpretações. Como diz a Bia, “sim, existe a tendência mundial: se não é usada, somos alienados; se é usada, fazemos cópia.”. E completa: “o povo quer redescobrir a roda e não vê que, agora, ela já foi descoberta. Então, o momento é de aprimorar-se e buscar não fazer a roda igual a do vizinho. E isso significa adequar as tendências ao conceito próprio proposto pela coleção, com identidade, trazendo novidade nisso. É pensar e repensar uma forma de ser novo, mesmo já existindo.”
Para finalizar: Anna Wintour deve ter lá suas razões para odiar o termo ‘blog’ [apesar de ter, recentemente, se rendido a ele]. É por conta dos blogs que, talvez, há tanta gente fantasiada de critico de moda, achando que saber fazer algo que, na verdade, é reverberar. Até porque, entre os blogs consagrados no meio da moda nacional, poucos são os que são realmente competentes para fazer cobertura de semana de moda e falar de tendência, informação de moda e conceito. Boa parte deles estão aí para orientar o consumidor, para dar consultoria de estilo pessoal, dizer o que é o must-have e como usá-lo. Cada um no seu quadrado, um complementando o outro, um deixando o outro fazer o que sabe fazer de melhor – em vez de todos atirarem para todos os lados e abrirem várias frentes.
Foto: André Batista